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Quatro estudantes baianos participam de torneio na França

Abne (E), Maria Vanúbia, Estefane e Marcos Felipe passaram 10 dias na Europa - Foto: Raul Spinassé l Ag. A TARDE

Estefane Santos, de 17 anos, e Abne Araújo, 17, jogaram com jovens da Inglaterra, Iraque e Cabo Verde. Marcos Felipe, 15, e Maria Vanúbia, 17, com iraquianos, alemães e indianos. Os quatro saíram do semiárido baiano para participar em Lyon, na França, do Street Footbal World Festival, torneio esportivo com foco em uma metodologia educacional que não preza pela competitividade.
Recém-chegados da Europa, onde estiveram por cerca de dez dias, os garotos, que passaram por uma seleção, integram uma rede de 6.500 jovens baianos beneficiados pela atuação do Instituto Fazer Acontecer (IFA), uma ONG que desenvolve atividades em 11 municípios baianos, por meio de programas sociais em escolas.
Nas disputas na França, os jovens baianos não podiam jogar todos juntos. A ideia era que as 80 delegações de diferentes países fossem misturadas. Os times, formados por seis jogadores, tinham que obedecer à regra: três meninos e três meninas. O foco, segundo os participantes, não é apenas o esporte, mas também a construção da cidadania.
Estefane conta que, para participar, houve resistência do pai, que não aceitava meninos jogarem com meninas. "Meu pai dizia que meninos são agressivos. Mas aprendi muito com os meninos. Todos jogam igual", relata a jovem.
Moradora de Conceição do Coité, ela conta que uma professora da escola a convidou para participar do projeto. "Ela me disse que o objetivo não era formar atletas, mas sim cidadãos", acrescenta. Na França, ela diz que formou amizade com iraquianos, ingleses, entre outros.
Morador de Valente, Abne conta que, no início, foi um "choque". "Jogar com mulheres? Eu não aceitava. Depois, mudou muito. Eu era muito agressivo. Chorava se perdesse. Hoje, sou muito tranquilo", revela o rapaz.
Vanúbia lembra que sempre gostou de futebol, mas que os primos não a deixavam participar. "Eu era muito ignorante. Xingava demais. Quando percebi, já estava transformada", diz a estudante, que andava cerca de 15 km da comunidade em que mora até a sede do projeto, em Valente.
Ao fim do torneio, os 500 participantes receberam as mesmas medalhas. A premiação a todos e as partidas em que meninos e meninas brincam juntos são algumas das características da metodologia, chamada de Futebol3. Segundo o IFA, é aplicada em mais de 50 países.
O estudante Marcos Felipe conta que se surpreendeu com outras delegações no festival como a de Serra Leoa que tinha jogadores com deficiência. Todos jogavam juntos.
Na Bahia, o ensino esportivo com foco na cidadania é realizado pelo IFA, instituição financiada por organizações internacionais e empresas privadas brasileiras. A partir de 2017, receberá também recursos do Criança Esperança.
Valores
"O foco é fazer com que eles possam utilizar o esporte como brincadeira e aprender alguns conceitos e valores, tais como respeito, cooperação, honestidade e solidariedade", explica o coordenador do IFA, Renato Paes Andrade. Somente as passagens ficaram a cargo do instituto. O restante foi pago pelo festival.
Os participantes tiveram de fazer uma apresentação característica do seus país de origem. Além dos baianos, havia também estudantes de outros estados do Brasil. Os quatro participantes da Bahia optaram por fazer algo com foco no semiárido. Vestiram-se de cangaceiros e Estefane cantou algumas canções, como Disparada, de Geraldo Vandré.
"As pessoas, ao assistirem, não sabiam de que país nós eramos. Os meninos vestidos de cangaceiros. Perguntaram se a gente era da Bulgária", conta o coordenador do IFA, ong criada em 2003.
"Três dias de reis e rainhas"
Além de participarem do torneio internacional, os quatro estudantes baianos ainda tiveram três dias para passear pela Europa. Com o tempo, conseguiram visitar, além da França, Itália e Suíça. "Foram dias de reis e rainhas", conta Marcos Felipe.
Morador de Conceição de Coité, ele coleciona tudo que conheceu pela primeira vez: elevador, esteira rolante, avião, barco, teleférico e neve. "O lugar mais distante que eu fui foi em Conde. Elevador, para mim, ainda é novidade. Escada rolante também", diz.
Abne ressalta que não consegue esquecer a viagem, os passeios e as partidas. "Eu não esqueço cada detalhe. Primeira vez na neve. Escorreguei parecendo criança. Nunca imaginaria que com 17 anos conheceria três países", destaca.
"A expectativa era enorme e foi tudo maior do que esperei. Chorei ao ver a neve", acrescenta Vanubia. A professora Tânia Maria Lima, uma das mediadoras do projeto, conta que a reação dos estudantes que não viajaram surpreendeu. "O melhor de tudo é que, ao ver resultados como esse, todo mundo começa a ter sonhos. Isso é muito importante", diz.
Projeto
A metodologia utilizada no projeto, a Futebol3 ou Esport3, nasceu na América do Sul, segundo o coordenador do IFA, em países como Colômbia, Argentina e Peru. A sede da rede Street Football Word, criada em seguida, fica na Alemanha. No Brasil, há seis instituições que participam da rede: na Bahia, São Paulo, Rio Grande do Sul, Maranhão e duas no Rio de Janeiro.
O Ifa atua direta ou indiretamente nos municípios de Araci, Barrocas, Teofilândia, Coité, Valente, Ichu, Riachão do Jacuípe, Pé de Serra, Mata de São João, Conde, Lauro de Freitas e Camaçari.
A metodologia se divide em três aspectos. O primeiro é um acordo sobre como a partida deverá ser jogada. Eles atribuem pontos à prática dos valores defendidos. Podem acordar, por exemplo, que o gol só vale se a bola passar por todo mundo. O segundo é a própria partida e, por fim, há a avaliação dos pontos.
"A partida não é definida pelos gols marcados, e sim pelo comportamento. Isso faz com que se esvazie a competitividade e se foque nos valores que são mais importantes, mas o tempo todo com divertimento", diz Renato Paes Andrade.

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